Milhões de católicos aguardam respostas do Vaticano que podem significar mudanças e até mesmo libertação. A 3ª Assembleia Extraordinária do Sínodo dos Bispos, que discutiu, desde o dia 5, questões relacionadas à família, terminou ontem sem consenso, mas a expectativa é que o papa Francisco se reúna no ano que vem novamente e só então anuncie as decisões e orientações da Igreja para temas como o divórcio e a união entre homossexuais. Nas paróquias de Belo Horizonte, as discussões também acontecem. Nos últimos 15 dias, padres abordam o tema em suas homilias, exaltando a necessidade de acolher cada vez mais “o rebanho que também é filho de Deus”. Entre os fiéis, pode ser a hora de romper barreiras e seguir o evangelho sem culpa.
Com o tema “Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização”, o sínodo vê de imediato a urgência e a relevância do assunto, que “merece estratégias pastorais mais ousadas e propositivas para possibilitar uma nova evangelização no âmbito da família e reverter o processo de desintegração e esboroamento das estruturas familiares”, conforme artigo do Bispo Diocesano de Campos (RJ), dom Roberto Francisco Ferreira Paz, na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). O documento de preparação para o encontro destaca que situações da sociedade moderna, como a família monoparental e as novas noções de matrimônio, merecem atenção, sem deixar para trás os pilares da Igreja. Na prática, espera-se a resolução de questões como a autorização da comunhão a divorciados que estão em novo relacionamento e entre homossexuais.
O serralheiro Manoel Messias de Castro, de 58 anos, morador de Santa Luzia, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, aguarda a palavra do papa para voltar a comungar. Ele está há 12 anos sem receber a hóstia, desde que passou a viver com a dona de casa Lúcia Maria Lopes, de 53. Ele é viúvo, mas ela é divorciada, o que impossibilita um novo matrimônio, de acordo com os preceitos católicos. O casal tentou junto ao tribunal eclesiástico a nulidade do casamento de Lúcia, mas teve o pedido indeferido no fim do processo. Católico fervoroso e com várias missões na paróquia que frequenta, Manoel é categórico: “Se houver alguma decisão nesse sentido, vou comungar novamente, porque é a palavra do papa. Caso contrário, mantenho meu posicionamento”.
Ele diz que a vida religiosa se fundamenta no que aprendeu. “Levo minha vida em adultério, pois vivo com uma pessoa com a qual não sou casado. Não posso abrir mão do que sempre acreditei. A comunhão em espécie faz muita falta, mas o mais importante é comungar na vida dos irmãos, com caridade e participando da igreja”, afirma. O padre chegou a lhe sugerir que se confessasse e, então, poderia comungar normalmente, mas ele não se sentiu à vontade. “O sínodo, com certeza, trará ideias novas. Posso aguardar essas determinações e fazer o que é mais correto.”
Manoel vai a mais de uma missa por semana e, atualmente, faz trabalhos religiosos em duas comunidades da região. Ele, que já serviu como ministro da eucaristia, espera poder se casar um dia. “Sou muito rigoroso, eu não poderia ir para a fila comungar com todos sabendo que vivo amasiado. Como servo da igreja, tenho que dar exemplo, e isso seria um escândalo. Se o Vaticano autorizar uma segunda união, gostaria de um casamento em público, em que o padre daria a bênção durante a missa. Assim, estaria muito à vontade para comungar. Seria uma libertação.”
Acompanhamento
Bispo auxiliar da Arquidiocese de Belo Horizonte, dom João Justino não acredita que uma nova norma será definida a partir do sínodo. “Minha expectativa é que o sínodo nos ajude a descobrir um modo possível de acompanhar essas pessoas. Creio que a decisão vá se basear num espaço para um trabalho mais pastoral, numa orientação personalizada, acompanhando de perto o casal (de divorciados). Uma das indicações é que o processo de nulidade seja mais ágil. Mesmo já ocorrendo esse acompanhamento, não temos autorização para dizer ‘comungue’.”
Dom Justino ressalta as mudanças na cultura brasileira nos últimos decênios, sendo uma delas pessoas que se divorciam e se unem a outra. Embora não haja números, ele afirma que muitos fiéis católicos estão nessa situação. “Muitos desses casais são acompanhados de perto, pois trazem um drama do ponto de vista religioso, por causa da doutrina da indissolubilidade matrimonial.” O religioso afirma que algumas paróquias têm trabalho específico com esses casais, uma vez que, entre eles, “há uma nova família constituída que quer viver a fé e pertencer à Igreja”.
Ele lembra que, quando o papa convoca o sínodo, quer saber como as igrejas estão lidando com determinada situação, assim, o sentido da reunião dos bispos é ouvir e se aproximar dos católicos. Dom Justino ressalta que nenhum casal em segundo matrimônio pode se sentir excluído. Para o bispo, está lançada uma situação pastoral desafiadora, pois muitos casais de divorciados trabalham e participam ativamente das atividades religiosas, mas não se aproximam da eucaristia. “É a construção de um caminho, e não é simples. Geralmente, as pessoas sofrem muito e elas fazem um papel de reconstrução da vida na fé.”
Estado de Minas
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