Espetáculo em Brejo da Madre de Deus, cidade pernambucana, já foi visto por 3,5 milhões de pessoas em 48 anos de encenação no maior teatro aberto do mundo
| Paixão de Cristo de fama e tradição |
Quando chega a Semana Santa, na pacata Brejo da Madre de Deus, a 180 km de Recife (PE), os moradores pegam suas cadeiras e se juntam nas calçadas de casa, mais do que o de costume, para ver o movimento único de milhares de carros que passam na rua. O município recebe nessa época gente de vários lugares do país em busca da famosa encenação da Paixão de Cristo de Nova Jerusalém, o maior teatro ao ar livre do mundo. A tradição do espetáculo, realizado há 48 anos, atrai cerca de 70 mil turistas por ano, número que ultrapassa o de habitantes, que é de 48,5 mil. Desde 1968, já foram mais de 3,5 milhões de espectadores.
Não importa que a narrativa da morte e ressurreição de Cristo já tenha sido repetida centenas de vezes e que todos já saibam o final decorado. A emoção de ver a história de amor, perdão e entrega de Jesus em cenários que imitam a cidade onde tudo ocorreu há dois mil anos renova a fé até dos mais incrédulos. São nove palcos grandiosos e realistas que reproduzem montes, palácios e o Templo de Jerusalém, distribuídos em 100 mil m2 (1/3 da área murada de Jerusalém antiga), cercados por uma muralha com 70 torres.
| Paixão de Cristo de fama e tradição |
O público percorre as cenas em três horas de espetáculo de pé. Mas cansaço não atrapalha a vontade de ficar o mais perto possível dos 55 atores - muitos famosos globais - e 500 figurantes (maioria moradores da cidade) que compõem o teatro, para ver a saga de Cristo desde a pregação no “Sermão do Monte” até a sua ascensão aos céus. De tão envolvidos, muitos xingam o personagem de Judas quando ele trai Cristo. Durante a caminhada de Jesus carregando a cruz, a plateia consegue acompanhar a Via Sacra e também se sentir parte da história. “A Justiça de Pilatos condenou Jesus. Se quereis provar a sua inocência apressai-vos”, repete a voz no som.
O momento da crucificação leva muitos a chorar, principalmente, os que conseguem ouvir os gritos de Cristo quando os soldados batem os pregos nas suas mãos, mesmo sem ver o ator no chão, apenas pensando no ato real. Essa é a única hora que se escuta o artista e não a gravação nas caixas de som – necessária para atingir os mais de 10 mil espectadores.
| Paixão de Cristo de fama e tradição |
Sob os olhares atentos e tecnológicos de centenas de smartphones, Cristo mostra sua paixão pelo povo. O homem crucificado representa não uma derrota, mas um gesto para salvar a humanidade. A Ressurreição faz todos vibrarem como em uma vitória ao verem uma luz azul (um drone) subir até o céu estrelado de Nova Jerusalém.
“A história pode ser interpretada no contexto de hoje, faz a gente refletir as negações que ainda fazemos a Jesus”, contou a funcionária pública Roseli Gomes, 52, que foi a primeira vez ao espetáculo quando tinha 15 anos e na terceira visita ainda se emociona. Não é a toa que as pesquisas de opinião realizadas em cada temporada mostram que cerca de 40% do público retorna para assistir a Paixão pelo menos mais uma vez.
Serviços
A Paixão de Cristo de Nova Jerusalém começou no Domingo de Ramos e termina agora no Sábado de Aleluia, amanhã. Os ingressos custam entre R$ 80 e R$ 120, dependendo do dia, com meia-entrada.
E xistem ofertas de excursões em ônibus de turismo e vans, que partem de cidades turísticas como Porto de Galinhas . O complexo de Nova Jerusalém também tem a Pousada da Paixão. Os hóspedes assistem à peça e atuam como figurantes com o elenco.
Para os turistas estrangeiros é possível acompanhar a peça ouvindo o áudio em inglês, espanhol ou francês. Cadeirantes também possuem um lugar reservado na plateia e acompanhamento de funcionários no trajeto de um palco a outro.
Jesus “superstar”
Com ricos figurinos, o espetáculo reúne atores famosos nos principais papéis. O Cristo, que este ano é interpretado por Igor Rickli, já foi encenado por artistas como Thiago Lacerda e Fábio Assunção. Com esses últimos, as mulheres ficavam mais animadas com o ator do que com a história. Outra novidade desta temporada é a atriz Paloma Bernardi no papel de Maria e Humberto Martins como Pilatos, a lém de atores pernambucanos da Sociedade Teatral de Fazenda Nova. “ A parte mais importante do meu laboratório para viver esse personagem são minhas orações. É Maria quem tem que me inspirar ”, disse Paloma.
“ Eu acredito nessa história. Pode parecer piegas, mas ela é incrível. Nunca vivi uma experiência dessa dimensão”, contou Rickli. Para Humberto Martins, Nova Jerusalém é, sem dúvida, o mais importante e o de maior repercussão “ Já participei de outros espetáculos ao ar livre com grandes públicos, mas nada comparado a esse”.
Passeio turístico
Quem vai ao espetáculo pode aproveitar para conhecer Caruaru, a capital do Agreste, que fica a cerca de uma hora de distância, e curtir a Feira de Artesanato e a cultura nordestina. Mas em Nova Jerusalém, na praça de alimentação também há muitas comidas regionais e forró. “A gente sempre vem e aproveita para passear nas cidades do interior. Já assisti outras paixões mas esse cenário é belíssimo e te leva à religiosidade ”, afirmou o médico Marcelo Carrilho, 53, que foi com a família. A filha, Ana Clara Simões, 10, prestava bastante atenção em tudo e gostou mais da “hora da ressurreição”.
História
O idealizador Plínio Pacheco chegou a vila de Fazenda Nova, em Brejo da Madre de Deus, em 1956, e teve a ideia de construir um teatro que fosse uma pequena réplica da cidade de Jerusalém para que nela ocorressem as encenações da Paixão. Em 1968, foi realizado o primeiro espetáculo. Hoje, o filho de Plínio, Robinson Pacheco, é o coordenador geral.
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